Arte Socialmente Engajada:
- Graciela Franco
- há 5 dias
- 4 min de leitura
entre a Escultura Social de Joseph Beuys e a Regeneração do Tecido Social
Ao me aproximar da Arte Socialmente Engajada, encontrei em Joseph Beuys uma afinidade inesperada ou talvez esperada.
Num primeiro momento, parecia que nossas perguntas partiam de lugares distintos. Beuys fala de criatividade. Eu falo de sensibilidade. Beuys desenvolve o conceito de Escultura Social. Eu investigo a regeneração do tecido social. As palavras eram diferentes e, por isso, a impressão inicial era a de que estávamos olhando para fenômenos distintos.
Mas, à medida que aprofundei a leitura, comecei a perceber algo diferente ou afim.
O que mais me chamou a atenção em Beuys não foi sua defesa da criatividade, mas sua compreensão de que a sociedade é uma expressão das capacidades humanas que a constituem.
Para ele, a transformação social não pode ser reduzida a mudanças externas nas instituições, na economia ou na política. Ela depende do desenvolvimento das capacidades humanas. Nesse sentido, a questão social é, antes de tudo, uma questão humana.
Nesse ponto, encontrei uma profunda convergência com minha próprias perguntas.
Também não acredito que a transformação social possa ser produzida apenas por reformas estruturais. Mas tampouco acredito que ela seja resultado de um desenvolvimento puramente individual.
O indivíduo transforma a sociedade, mas também é transformado por ela. Nós nos constituímos nos encontros. Somos continuamente formados pelas relações que estabelecemos, pelas comunidades das quais participamos e pelos ambientes sociais que habitamos.
Por isso, minha atenção voltou-se para aquilo que tenho chamado de tecido social.
O tecido social não é uma estrutura abstrata. Ele é composto pelos fios invisíveis das relações humanas. Cada encontro fortalece ou fragiliza esses fios. Cada comunidade tece uma determinada qualidade de convivência. Cada instituição favorece ou dificulta certas formas de relação.
A questão, então, tornou-se a seguinte: quais capacidades humanas tornam possível um tecido social saudável?
Foi nesse caminho que cheguei ao conceito de sensibilidade.
Mas não no sentido habitual da palavra.
Não me refiro à sensibilidade como delicadeza emocional ou mera capacidade de sentir.
Refiro-me à sensibilidade como uma capacidade criativa de perceber a vida. A capacidade de perceber o que cada situação singular pede de nós para além de fórmulas, impulsos, hábitos ou respostas prontas.
A vida social não admite receitas.
Os mesmos princípios não se aplicam da mesma maneira em todas as situações. O que uma relação pede não é necessariamente o que outra pede. O que fortalece uma comunidade pode enfraquecer outra. O que é necessário num contexto pode ser inadequado em outro.
Por isso, a vida social exige uma capacidade de percepção viva.
Assim como um artista observa uma obra e percebe que falta uma cor, uma forma ou um gesto, também o ser humano precisa desenvolver a capacidade de perceber o que uma situação social necessita para encontrar mais equilíbrio, vitalidade e coerência.
Foi justamente nesse ponto que comecei a reconsiderar minha diferença inicial em relação a Beuys.
Talvez sua criatividade não fosse aquilo que normalmente entendemos por criatividade.
Talvez ele também estivesse se referindo a essa capacidade humana de participar conscientemente dos processos vivos da realidade. Não apenas criar algo novo, mas perceber possibilidades ainda não realizadas. Não apenas expressar algo próprio, mas abrir espaço para que algo possa se revelar.
Se assim for, criatividade e sensibilidade tornam-se menos opostas do que pareciam à primeira vista.
Talvez sejam duas portas de entrada para um mesmo fenômeno humano fundamental.
Beuys escolheu enfatizar seu aspecto criador.
Eu enfatizo seu aspecto perceptivo.
Mas ambas apontam para a necessidade de desenvolver capacidades que permitam ao ser humano participar conscientemente da construção da vida social.
É nesse contexto que a arte assume um papel central.
Não porque a arte seja uma ferramenta para resolver problemas sociais. Nem porque ela deva transmitir mensagens ou defender causas específicas.
A arte importa porque ela educa a percepção.
Ela exercita a capacidade de escuta, de observação, de imaginação e de presença. Ela nos convida a abandonar respostas prontas e a entrar em relação com aquilo que está diante de nós. Ela desenvolve justamente a faculdade que permite perceber o que está querendo emergir numa situação.
Por isso, compreendo a arte como um caminho privilegiado para o desenvolvimento da sensibilidade.
E compreendo a sensibilidade como uma condição para a regeneração do tecido social.
Carrego a desconfiança de que se a vida social é tecida nos encontros humanos, sua qualidade dependerá das capacidades que os seres humanos levam para esses encontros. Entre essas capacidades, a sensibilidade ocupa um lugar fundamental. E a arte pode oferecer um dos caminhos mais fecundos para seu cultivo.
Talvez seja essa a principal aproximação entre a Escultura Social de Beuys e as perguntas que venho desenvolvendo. Ambas partem da compreensão de que a transformação social não começa nas estruturas, nem termina nos indivíduos. Ela acontece no espaço vivo das relações humanas, onde o ser humano e a sociedade se formam mutuamente.
A diferença talvez esteja apenas na imagem que escolhemos para olhar esse processo. Mas ambos estamos olhando para a mesma tarefa: participar conscientemente da criação de uma vida social mais humana.

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