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A Construção do social começa no corpo!

O mundo fala comigo através dos meus sentidos.

Tudo o que vejo, toco, escuto e sinto vai formando quem eu sou por dentro.

Quando me abro de verdade para a experiência do mundo,

descubro que aquilo que parecia estar fora também habita em mim.



A construção do social começa no corpo. Antes de sabermos falar sobre convivência, empatia ou respeito, o ser humano precisa primeiro experimentar a si mesmo. Precisa sentir onde começa e onde termina. Precisa viver o próprio corpo como um lugar seguro. É nesse território inicial que nascem as bases da vida social futura.


Na primeira infância, quatro sentidos estruturam profundamente a relação da criança com o mundo e consigo mesma: o tato, o sentido vital, o movimento e o equilíbrio. Esses sentidos não são apenas percepções físicas; são experiências fundadoras da existência humana. São eles que constroem o chão sobre o qual, mais tarde, a criança poderá desenvolver autonomia, vínculos saudáveis e uma percepção real do outro.


Ao entrar na segunda infância, especialmente nos primeiros anos do ensino fundamental até aproximadamente os nove anos, esses sentidos continuam profundamente ativos. Embora a palavra passe a ter maior presença e a vida emocional se torne mais estruturada, a criança ainda precisa de experiências corporais reais para consolidar o desenvolvimento iniciado na primeira infância.


Entre esses sentidos, o tato ocupa um lugar essencial. O tato revela o limite. É através dele que a criança começa a perceber que existe uma fronteira entre o próprio corpo e o mundo. Cada toque, cada contenção amorosa, cada experiência concreta ajuda a criança a formar uma imagem interna de si mesma. Quando o adulto oferece limites físicos com presença e firmeza tranquila — segurando uma mão que bate, impedindo um empurrão, contendo um gesto que ultrapassa o outro — não está apenas controlando um comportamento. Está ajudando a criança a perceber onde ela termina e onde o outro começa. Esse limite é concreto, corporal e claro. Não se baseia em longas explicações que a criança pequena ainda não consegue assimilar. A postura do adulto é objetiva, firme e calma. O gesto fala antes da palavra.


Na primeira infância, esse trabalho acontece prioritariamente no nível físico. A criança ainda não vive a palavra como um limite interno. Ela vive o gesto. Vive o ambiente. Vive o tom de voz. Vive o ritmo do dia. Por isso, a educação nesse período é essencialmente corporal e vivencial. O limite não é uma explicação longa; é uma ação clara, tranquila, coerente e repetida.


Quando uma criança morde, empurra ou bate, ela não está agindo por maldade, mas por imaturidade na percepção do próprio limite. Ela ainda está diluída na experiência do mundo. Ao oferecer limites concretos e consistentes, o adulto contribui para a formação do sentido do tato e, ao mesmo tempo, para a construção inicial da relação com o outro, pois este sentido, na vida adulta, vai expressar a capacidade de compreensão do limite de si diante do outro.


O tato também se relaciona com a experiência de segurança ou insegurança básica. Quando o limite corporal não é bem formado, a criança pode viver o mundo como excessivamente invasivo ou imprevisível. Isso pode se manifestar como medo — medo do contato, medo da aproximação, medo do ambiente ou reações defensivas intensas. O medo, nesse sentido, não é apenas emocional, mas corporal. Ele nasce de uma dificuldade em sentir o próprio contorno. Quando o tato é fortalecido por experiências claras, por limites firmes e por um ambiente confiável, a criança tende a desenvolver maior sensação de proteção interna, o que reduz a necessidade de respostas agressivas ou retraídas diante do mundo.


O desenvolvimento humano, porém, não acontece de forma cartesiana. Não termina um processo para começar outro. Os sentidos crescem juntos, interagem e se influenciam. O trabalho com o tato já começa a reverberar na vida social da criança pequena. Da mesma forma, o cuidado com o ritmo, com o movimento e com o bem-estar vital já constrói bases emocionais profundas.


Esse sentido, assim como todos os quatro sentidos básicos, reverbera ainda muito fortemente nos primeiros três anos da segunda infância, agora com uma nuance também emocional e uma ampliação para os limites verbais. O tato continua sendo fortalecido por limites claros e gestos coerentes do adulto.


O sentido do movimento — ou sinestésico — permite à criança perceber a si mesma em ação. É através do movimento que ela sente sua própria vontade. A educação da vontade é um dos maiores desafios da atualidade. Subir, descer, empurrar, carregar: cada experiência corporal organiza internamente a sensação de liberdade e de capacidade de agir no mundo. Quando o movimento é rico, variado e livre dentro de limites seguros, a criança desenvolve uma relação saudável com a própria iniciativa. Quando o movimento é excessivamente restringido ou substituído por experiências passivas, pode surgir uma dificuldade posterior de autorregulação e autonomia.


Isso ainda reflete intensamente nos primeiros anos da segunda infância, nos quais a criança precisa profundamente de movimento para se autorregular e abrir espaço para o aprendizado e para a organização da vontade.


O sentido do equilíbrio atua na percepção da posição do corpo no espaço e, simbolicamente, na posição interior diante do mundo. Ambientes que permitem experiências corporais reais — subir em estruturas, caminhar em superfícies variadas, girar, pular, balançar — ajudam a criança a construir confiança em si. O equilíbrio não é apenas físico; ele alimenta uma sensação interna de estabilidade que, no futuro, apoia a capacidade de enfrentar desafios sem desorganização emocional excessiva.


Nos primeiros anos da segunda infância, as experiências do sentido do equilíbrio sustentam a movimentação emocional intensa que desperta neste momento da vida e fortalecem a confiança diante dos desafios escolares e sociais.


Já o sentido vital, ou da vida, merece uma atenção muito especial. Ele está relacionado à percepção interna de bem-estar e mal-estar. É o sentido que informa silenciosamente ao organismo se algo está bem ou se algo está errado. Ritmo diário, previsibilidade, harmonia no ambiente, beleza estética, tom de voz acolhedor e presença emocional estável dos adultos — tudo isso nutre profundamente o sentido vital. A falta de pressa é um elemento essencial nesse cuidado. A pressa atua de forma profundamente negativa sobre o organismo infantil. A pressão constante com o tempo, a urgência permanente, a aceleração das atividades e a ausência de pausas desorganizam o sistema vital da criança. Quando tudo acontece rápido demais, o corpo não consegue metabolizar as experiências. O ritmo se perde, o sistema interno entra em estado de alerta e a sensação básica de bem-estar se fragiliza.


Quando a criança vive em ambientes caóticos, imprevisíveis ou excessivamente estimulantes — ou marcados por pressa constante — o corpo permanece em estado contínuo de tensão. O organismo aprende a sentir que algo está sempre errado. Mais tarde, essa sensação difusa pode levar a buscas externas para preencher um mal-estar interno permanente — dependências emocionais e químicas, necessidade de estímulos intensos ou dificuldade de autorregulação. Por isso, cultivar o sentido vital na infância é oferecer ao corpo a experiência de que o mundo pode ser habitável, confiável, ritmado e compreensível.


No início da segunda infância, esse ritmo possibilita segurança e bem-estar que apoiam as movimentações emocionais naturais da fase, bem como sustentam o aprendizado. Ele continua sendo alimentado por previsibilidade, ausência de pressa e ambientes emocionalmente estáveis.


Na fase da segunda infância, o cuidado com esses sentidos cria a base para uma transição saudável da experiência corporal para a vida anímica mais consciente, preparando a criança para relações sociais mais complexas e para uma percepção mais clara do outro.


Como trabalhar, então, esses quatro sentidos na prática cotidiana?

Para o tato: limites físicos claros e respeitosos, contato corporal afetuoso, materiais naturais, experiências táteis variadas, cuidado com a qualidade do toque e com a presença do adulto. O limite não é rigidez; é contorno seguro. Segurar a mão que bate, conter um empurrão, aproximar o corpo com firmeza tranquila são gestos educativos que ajudam a criança a perceber seu próprio limite sem necessidade de longas explicações que ainda não fazem sentido para ela. Na segunda infância, esses limites já podem ser verbais, porém em comandos simples e objetivos, sem longas explicações.


Para o movimento: tempo amplo para brincar livremente, oportunidades de esforço físico real, atividades manuais, vida prática, subir, empurrar, carregar e construir. O corpo precisa viver sua potência.


Para o equilíbrio: ambientes que desafiem o corpo com segurança — trilhas, obstáculos simples, diferentes alturas e superfícies. O equilíbrio nasce da experiência, não da instrução.


Para o sentido vital: ritmo previsível, alimentação tranquila, pausas de descanso, ausência de pressa, tempo suficiente para cada atividade, silêncio, repetição saudável das rotinas, ambiente esteticamente harmonioso, vozes calmas e gestos coerentes. O ritmo é a respiração do cotidiano.


Ao longo do desenvolvimento, esses sentidos amadurecem e se expandem. A criança cresce, a palavra ganha espaço, a vida emocional se complexifica e a capacidade de refletir aumenta. Mas as bases permanecem no corpo. A construção do social começa no sentir, no mover-se, no ser contido, no experimentar o próprio limite.


Quando o ser humano aprende, desde cedo, a habitar o próprio corpo com segurança e clareza, torna-se mais capaz de reconhecer o outro como outro. A percepção do limite interno abre espaço para o encontro verdadeiro. O caminho para a vida social não começa nas regras abstratas, mas na experiência encarnada de existir.

Educar os sentidos básicos não é apenas preparar a criança para a escola ou para a aprendizagem. É preparar o ser humano para a convivência. É formar indivíduos que possam estar no mundo com presença, respeito e capacidade de relação.


E talvez a pergunta mais profunda que possamos levar conosco seja esta: antes de ensinar a criança a conviver com o outro, estamos ajudando-a a sentir onde ela própria começa?



 
 
 

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