O caminho regenerativo: regenerar
- Graciela Franco
- 8 de abr.
- 3 min de leitura
Se compreender é o primeiro¹ movimento do processo regenerativo e criar condições é o segundo², regenerar é o momento em que a obra começa a revelar-se.
Quando um designer têxtil cria um tecido, ele não começa pela forma pronta. Primeiro observa as necessidades, as tensões, os usos possíveis, os materiais disponíveis. Depois busca uma forma e cria as condições para que aquele tecido possa emergir.
Quando é feito um Designer Social Regenerativo, se realiza um movimento semelhante.
Seu material não são fios de algodão, lã ou seda. Seu material são relações humanas, comunidades, instituições, culturas e formas de convivência.
O processo regenerativo cria condições para que uma obra social possa emergir.
Mas essa obra não é um objeto.
Ela também não é simplesmente uma comunidade, um grupo ou uma instituição.
A obra é o próprio tecido social. Ou, talvez mais precisamente, a qualidade da trama desse tecido.
Assim como um tecido é composto por diferentes fios, também o tecido social é composto por diferentes qualidades humanas.
Na dimensão individual e cultural encontramos fios como singularidade, autonomia, criatividade, liberdade de pensamento e respeito à diversidade humana.
Na dimensão social encontramos fios como confiança, escuta, participação, dignidade, pertencimento, responsabilidade compartilhada e fluxo recíproco de contribuição e cuidado.
Na dimensão econômica e ecológica encontramos fios como cooperação, reciprocidade, interdependência consciente, cuidado com a vida e cuidado com a natureza.
Esses fios não estão soltos.
Cada um possui sua função dentro da trama.
Assim como não se utiliza qualquer fio em qualquer parte de um tecido, também uma vida social saudável depende da organização harmônica dessas qualidades em seus lugares adequados.
A singularidade não substitui a cooperação.
A liberdade não substitui a responsabilidade.
A autonomia não substitui o pertencimento.
A qualidade do tecido depende da forma como seus fios se relacionam.
Por isso a pergunta fundamental deixa de ser apenas quais são os fios que compõem uma comunidade.
A pergunta passa a ser:
Como esses fios estão sendo tecidos?
A resposta não está apenas na sociologia.
Ela está também na própria arte têxtil.
Um tecido destinado à alta costura não é avaliado apenas pelos materiais que utiliza. Ele é reconhecido por qualidades como resistência, flexibilidade, equilíbrio, textura, harmonia, capacidade de sustentar forma, qualidade dos fios, qualidade das conexões entre os fios, beleza, durabilidade e coerência do conjunto.
Da mesma forma, um tecido social capaz de sustentar a vida também pode ser reconhecido por determinadas qualidades.
Um tecido de qualidade não rasga facilmente.
Socialmente isso aparece como resiliência relacional, a capacidade de atravessar conflitos sem romper vínculos.
Um tecido de qualidade possui elasticidade.
Socialmente isso aparece como adaptabilidade, a capacidade de acolher mudanças sem perder identidade.
Um tecido de qualidade possui fios bem conectados.
Socialmente isso aparece como pertencimento, quando as pessoas sentem que fazem parte.
Um tecido de qualidade possui trama e urdidura.
Nenhum fio sustenta sozinho o tecido.
Socialmente isso aparece como interdependência consciente.
Um tecido de qualidade distribui tensões.
Quando a tensão se concentra em um único ponto ele rasga.
Socialmente isso aparece como responsabilidade compartilhada.
Um tecido de qualidade permite circulação.
Respira. Não sufoca.
Socialmente isso aparece como fluxo recíproco de contribuição e cuidado.
Um tecido de qualidade possui beleza.
Mas a beleza não está em um único fio.
Ela está na relação entre eles.
Socialmente isso aparece como harmonia entre singularidade e comunidade.
Duas comunidades podem possuir o mesmo número de pessoas, os mesmos recursos e até uma cultura semelhante.
Uma pode produzir fragmentação.
Outra pode produzir vida.
O que muda é a qualidade da trama.
Por isso a regeneração não consiste apenas em criar encontros ou realizar atividades.
Regenerar significa participar conscientemente do processo de tecer relações capazes de sustentar a vida.
A qualidade dessa trama não é uma condição inicial.
Ela é uma leitura permanente da obra que vai emergindo.
Assim como um escultor observa continuamente aquilo que surge de seu trabalho e ajusta sua ação em diálogo com a própria obra, também o processo regenerativo observa continuamente a qualidade do tecido que está sendo formado.
Existe uma intenção.
Existe uma imagem de harmonia.
Mas a forma final nunca está totalmente determinada.
Ela se revela no encontro entre intenção e realidade.
Por isso o processo regenerativo não acontece de forma linear.
Ele acontece em espiral.
Observamos.
Compreendemos.
Criamos condições.
Acompanhamos aquilo que emerge.
Observamos novamente.
Criamos novas condições.
Tecemos novamente.
Cada volta da espiral incorpora novos aprendizados, novas tensões, novas diferenças, novos desafios e novas possibilidades.
Não existe um mundo regenerado pronto.
Existe um processo contínuo de qualificação da trama da vida.
Regenerar é participar conscientemente desse processo de tecelagem.
É colaborar para que a qualidade das relações humanas se torne cada vez mais capaz de sustentar liberdade, pertencimento, responsabilidade, cooperação e cuidado com a vida.
Talvez seja justamente aí que a obra de arte social se revela.
¹ Vide texto: O caminho regenerativo: Compreender.
² Vide texto: O caminho regenerativo: Criar condições.

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