O caminho regenerativo: compreender
- Graciela Franco
- 4 de abr.
- 2 min de leitura
Atualizado: 5 de jun.
Compreender é o primeiro movimento do processo regenerativo.
Antes de criar condições para a transformação, é necessário compreender a forma atual da vida. Não para corrigi-la imediatamente, nem para julgá-la, mas para escutá-la.
O compreender possui três movimentos complementares: observar, escutar o fenômeno e desenhar.
O primeiro movimento é observar.
Observar exige suspender julgamentos, preferências, teorias e interpretações prévias. Trata-se de abrir espaço para que o fenômeno possa revelar-se por si mesmo.
Nesse momento, algumas perguntas orientam a observação:
Quais forças estão presentes?
Quais polaridades estão atuando?
Qual é a intensidade dessas forças?
Há movimento entre elas?
Há rigidez?
Há fluxo?
A observação busca compreender as forças que atuam em determinado fenômeno social. Para isso, observa as polaridades presentes, a intensidade com que cada força se manifesta e a existência, ou não, de movimentos de equilíbrio entre elas. Não se trata de determinar qual polo está certo ou errado, mas de perceber como essas forças se relacionam, onde existe rigidez, onde existe fluxo e como a vida busca, ou deixa de buscar, formas mais harmônicas de organização.
O segundo movimento é a escuta do fenômeno.
Ao suspender julgamentos, torna-se possível escutar aquilo que a própria realidade está revelando.
O fenômeno começa então a indicar onde o fluxo da vida encontra bloqueios e onde busca novas possibilidades de equilíbrio.
As perguntas que orientam esse momento são:
O que o fenômeno está revelando?
O que a vida está pedindo aqui?
A escuta não procura confirmar ideias prévias. Procura permitir que a própria realidade apresente suas necessidades, tensões e potenciais.
O terceiro movimento é desenhar.
Desenhar não significa ainda intervir. Significa construir uma imagem organizadora daquilo que foi observado e escutado.
Nesse momento, retorna-se ao conceito. Mas não a um conceito abstrato ou ideológico. Retorna-se a uma imagem de harmonia.
A harmonia não depende de uniformidade. Assim como uma obra de arte pode conter contrastes, tensões, linhas distintas e múltiplas formas, também a vida pode manifestar equilíbrio sem eliminar diferenças.
O desenho social procura reconhecer como os diferentes fios da vida coletiva estão organizados e como se relacionam entre si.
Na dimensão cultural e individual, observa-se a presença da singularidade, da autonomia, da criatividade, da liberdade de pensamento e do respeito à diversidade humana.
Na dimensão social, observa-se a presença da confiança, da escuta, da participação, da dignidade, do pertencimento e da responsabilidade compartilhada.
Na dimensão econômica e ecológica, observa-se a presença da cooperação, da reciprocidade, da interdependência consciente, do cuidado com a vida e do cuidado com a natureza.
O objetivo não é produzir um modelo ideal, mas reconhecer a forma atual do tecido social, identificar onde os fios encontram-se fortalecidos, onde estão fragilizados, onde existem excessos, carências, tensões ou bloqueios e onde a vida busca reorganizar-se.
O desenho social surge como uma imagem provisória do organismo observado.
Uma imagem que permite compreender quais condições precisam ser cultivadas para favorecer processos regenerativos.
Compreender não significa ainda transformar.
Compreender significa desenvolver uma percepção suficientemente sensível para reconhecer o que a vida está buscando realizar antes de decidir como colaborar com ela.

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